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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#117 as noites de ouro (e não os globos de ouro)

Eu sei que hoje os globos de ouro 2017 devem constituir os termos mais pesquisados em Portugal. Nada contra, pelo contrário, gosto muito de festas, de Portugal e de categorias como Cinema e Teatro serem premiadas. Mas as verdadeiras noites de ouro para mim e que tudo (e em tudo) têm a ver comigo ocorrerão a 7 e 8 de Junho.

Na cinemateca.

Em Lisboa.

 

 

 

#97 dia pessoal do teatro

 

Não é falta de interesse meu pelo teatro, não. É um amor a resolver, este entre mim e o teatro, uma tesão adiada que vamos ter de concretizar - e guardo no peito a esperança que daí comecemos a namorar para o resto da vida. 

 

 

No outro dia, fui assistir a “Encontrar o Sol” - de Edward Albee, com encenação de Ricardo Neves-Neves - no São Luiz. No fim, os actores conversavam com o público e uma senhora, às tantas, decide expor que considera que nós, actores, artistas, nos queixamos muito - que ela teve uma empresa que quase foi à falência durante a crise e ela pôs mãos à obra e construiu tudo do zero, de novo, com sucesso. Queixamo-nos muito e devíamos era fazer e, já agora, devia haver mais sessões porque realmente assim é difícil, a sala está quase sempre esgotada. Minha senhora, se estiver a ler isto, saiba que nesse momento senti vontade de saltar da cadeira e lhe espetar duas chapadas bem dadas. Mas a Cucha Cavalheiro foi muito mais inteligente do que eu e respondeu apenas o que eu pensei: Nós estamos a fazer, isto é fazer. Num segundo, passam pela memória todas as produções que fiz a custo de nada, equipas e equipas de pessoas com altos níveis académicos a fazer apenas para que isto não morra, para que arte continue, para que a expressão artística exista independentemente das piores crises económicas, para que uma crise económica não resulte sempre numa matança cultural. 

 

A primeira vez que interpretei uma personagem foi num grupo de teatro amador, há já 18 anos. A última vez que fiz teatro foi em 2013 e ainda não recebi os meus honorários. Teatro, teatro, fazes parte de mim.

 

O que dizer no dia mundial do teatro quando só me apetece falar de cinema, dos prémios sophia, dos júris do ica, de tudo o que se anda a passar nesta área em portugal? É mais fácil falar do que sei, ou do que conheço, pelo menos, um pouco.

  

A cerimónia dos Prémios Sophia foi seguida de um after-party que não era de todo uma festa, mas sim um encontro entre convidados e que permitiu falar sobre assuntos importantes da nossa área. Muitos saíram desiludidos com a falta de strobs e de DJs à altura. Confesso que um pouquinho mais de bebida e comida não fariam mal ao nosso povo, mas a maior satisfação que aquilo me deu foi ver que havia um objectivo de encontro para se conversar, para se debater num espaço próprio (ao invés de o fazer na plateia durante a cerimónia) e que esse objectivo, pelo menos por alguns, estava a ser concretizado. 

 

Perco-me no meu raciocínio ao falar de teatro ou de cinema, perco-me ao falar de interpretação, da importância do objecto artístico. É como se tivesse que resumir todos os meus sentimentos sobre a vida e considerações sobre o mundo num parágrafo e quando conseguir fazer isso, bom, talvez já tenha escalado o everest e visitado os monges tibetanos e tenha encontrado o nirvana, algures, perdido nos meus neurónios. Perco-me na definição de teatro, de cinema, de arte, de actor da mesma forma que me quero perder na definição de amor.

 

©Joanna Correia

#95 a luxwoman perguntou-me umas coisas e eu respondi

 

Mas isso não me preparou para o impacto de abrir a página da LuxWoman e deparar-me com isto:

 

 

 

Mulheres com atitude e Helena Canhoto no mesmo sítio. Já ganhei o dia. :)

http://www.luxwoman.pt/helena-canhoto/

 

 

Obrigada LuxWOMAN, Carolina Almeida e Masemba pelo simpático convite!

#93 a garrafita precisa de amorzito

 

 

Para quem ainda não viu a campanha, aqui vai uma fotografia a uma página de jornal:

 

É. Eu sei.

 

No outro dia estava a gravar com o telemóvel um famoso InstaStories sobre a beleza dos prédios de Lisboa ao pôr-do-sol e, enquanto proferia essa frase cliché mas sempre digna de lembrança, um carro com uns otários quaisquer passou e ouvi: és mesmo ljdhozfg, fazia-te çfhaglijdbeg, ó sfglahfna. Juro que foi isto que disseram. Eu, num tripeiro menos educado, proferi a seguinte frase: “Só para lembrar que os prédios de Lisboa ficam mesmo vai pró cará* ó filho da p*!”. Parei de gravar e ri-me muito, pensando na alegria de aquilo não ser um directo.

 

Ora, a Débora Monteiro tem curvas. Bonitas. E é giríssima. Está tudo bem. E se alguém se atrevesse a soltar verborreias semelhantes às acima retratadas, ela responderia certamente com o nível tripeiro que lhe vai na veia: Bonita é a garrafita, ó morcom! E nisto ficaríamos. Bonita, bonita, é a nova garrafita. Não que eu seja condescendente com estes pseudo-piropos untados a violência, mas juro que aqui só vejo boa intenção. Por exemplo: porquê “Bonita, Bonita” e não “bonito, bonito” que, como toda a gente sabe, é rapidamente completado com algo sobre tomates e, às vezes, as canções de Tozé Brito? Porque a campanha anterior era:

 

 

E isto, sim, é de mau gosto, senhores. Porque toda a gente percebe o trocadilho do “bonito bonito” e do favaíto.

 

Na nova campanha houve, claramente, uma provocação, uma crítica aos anúncios das gajas boas, falando das curvas da garrafa que, essa, sim, é o que interessa.
Contudo, há um tiro no pé. A Débora é bonita, a garrafa é, de facto, para o target, vá, bonita, mas a fotografia é péssima. E a roupa. E a produção. Porquê? Parece que um leitor do post do MCSomsen sobre o assunto acertou:

 

 

Pois quem teve a ideia de melhorar o “bonito bonito”, tirar-lhe a brejeirice, brincar com o sexismo e quase atribuir o poder à mulher nortenha, que, banhada pelo Douro, os manda a todos olhar para as curvas da garrafa, não esteve nada mal. Às tantas tinha esta e mais três ou quatro ideias em carteira, como é comum nestas andanças da publicidade e como o autor do comentário sugere. Mas foi esta a ideia escolhida - afinal, para quê responsabilizarmo-nos por uma subida de bom gosto e tacto do target a que se dirige?  Se a respeitável Débora tivesse sido bem vestidinha com uma direcção de arte à maneira, provavelmente tudo isto teria sido engraçado o suficiente para que o trocadilho,a provocação e o gozo com este tipo de campanhas fosse evidente em um nanosegundo. 


Como nos filmes a gozarem com os maus filmes, cujo target são os espectadores desses mesmos maus filmes, há sempre uma linha muito difícil de definir. E de defender.

Bonita, Bonita, é a nova garrafita e a verdade que é o Favaito continua a ser uma maravilha de se consumir na verdadeira tasca portuguesa, onde ainda nos rimos com os bigodes nojentos e farfalhudos e os calendários das mulheres de Santarém - tascas onde os turistas ainda não nos obrigaram a ter de viver sempre no melhor do bom gosto e onde ainda podemos mandar pra certo sítio os homens dos moscatéis.

 

 

 

#90 maria helena vieira da silva

 

Uma amiga liga-me a dar os parabéns. Pessoal, é hoje o meu episódio do Ministério do Tempo. Rebobinámos na box e assistimos, os quatro, à magia moderna de me ver a interpretar a Maria Helena Vieira da Silva numa placa de LEDs luminosos. Para eles, esteve bem e passou num instante. Boa, miúda. Para mim, não foi bem assim.

 

Enquanto passamos pelos vossos televisores como hologramas, apropriamos palavras que vós, espectadores atentos, acreditam desaparecer connosco quando desligam o botão e vão dormir. ( os espectadores desatentos não escutam essas palavras, ouvem manchas sonoras que fazem companhia nos fins de dia, nada contra, acho enternecedor pensar que a minha voz pode fazer parte dessa tecelagem humana.)

 

Escrevo aos espectadores atentos, os que imaginam como será a nossa vida de ler textos, ensaios, talentos naturais a debitar as palavras das personagens que parece que têm sempre tanto a ver connosco. Escrevo para lhes dizer que em cada episódio há dias e dias de trabalho, de doze horas diárias em estúdios, de acordar de madrugada e chegar a noite a casa, de receber textos à última da hora de cenas que ainda estão longe de acontecer e que estão descontextualizadas daquilo que já conhecemos da personagem, textos com palavras que não foram escritas nem pensadas por nós mas, tantas vezes, por pessoas que nunca conhecemos na vida. Com as tais palavras que se tornam nossas. Para lhes lembrar que chegamos a casa e também gostamos de fazer sopa para o jantar, dar um beijo a alguém, tomar um banho, fazer algo de diferente, mas há textos para estudar e de repente já só faltam outra vez cinco horas para acordar e ter a cara mais lavadinha do mundo em frente a lentes e câmaras que nos engordam e disformam para duas dimensões, favorecendo uns e acabando com a auto-estima de muitos, muitos mais.

 

Eu, eu não tenho razão de queixa. Quanto mais trabalho mais gosto do que faço, interpretar é uma fonte infinita de felicidade. Contudo, espectadores atentos, expectantes e especuladores, as palavras não desaparecem quando o televisor desliga. Podem desligar todos os televisores do mundo e destruir todas as boxes e gravadores existentes que o nosso cérebro guarda as palavras, uma a uma, e bebe as personagens e aglutina-as em nós, qual Pessoa, qual Álvaro de Campos. As palavras não vão embora porque nós também não vamos embora e, enquanto se cruzam com os nossos hologramas televisivos, os espectadores atentos e desatentos estão, apenas e na verdade, a ver-nos a crescer. 

 

 

#87 vamos lá ter um emprego como deve ser

 

Já não é a primeira vez que Candela Peña pede trabalho em público, à comunicação ou em entregas de prémios, sem qualquer pudor. Não tenho como não empatizar com a sua causa. Desta vez, foi na passadeira vermelha dos Goya, que, quando abordada pelos jornalistas, soltou: «Pues muy bien, que me den trabajo, porque llevo meses sin rodar y tengo que pagar la luz y las facturas.»

 

O documentarista Paulo Carneiro chamou-me à atenção para este artigo, que menciona Candela Peña e descreve brevemente a precariedade na área do cinema. Passei para os comentários que, como é habitual - e, pelos vistos, não são só um cancro das publicações portuguesas - são tremendos. Um tipo dizia-lhe que arranjasse um trabalho normal, de gente normal.  E outra: Que vá lavar escadas, como as outras pessoas.

 

Vamos lá ver: o que é ter um trabalho normal? Como gente normal? É ter um trabalho não-qualificado? Não pode ser um trabalho qualquer, como médico, advogado ou professor, com certeza. Porque para esses também é preciso um curso superior, colocações - e eles também correm o risco de se queixarem, atenção. Um trabalho normal é lavar escadas, servir a mesas de restaurantes de segunda que não peçam curso de hotelaria, reposição em armazéns e supermercados, ser funcionária da caixa registadora, empregada doméstica? É isso, não é? Porque fora desses trabalhos, bom, somos todos uns queixinhas exigentes. Trabalho artístico? Isso é para mandriões! Vão trabalhar, chupistas!

 

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#86 o ministério do tempo

 

Tenho participado, felizmente, de algumas séries e novelas no último ano. Esta é das mais originais e promissoras. Para vos ajudar a compreender o enredo antes de assistirem à estreia, hoje, às 21h na RTP1, vai aqui um belíssimo organograma e a página da série. Divirtam-se!

 

 

"Na mesma época em que os marinheiros portugueses davam novos mundos ao mundo, D. João II ficou a conhecer o incrível segredo das Portas do Tempo. Para as gerir criou o Ministério do Tempo. E atribuiu-lhe uma única missão: Garantir que ninguém viaja ao passado para alterar o presente.

O Ministério do Tempo mantém-se aberto até aos nossos dias. É o grande segredo do Estado Português. A sua existência passa da boca de uns poucos eleitos para os ouvidos de outros. Apenas os melhores e mais úteis são chamados para trabalhar no Ministério do Tempo. Um local onde os colegas de trabalho tanto podem ter crescido connosco, como ser amigos de infância de D. Afonso Henriques."

 

#84 o balanço anual

 

2016 vivi-o inteiro na mesma casa. Quem me conhece, sabe o quanto é importante para mim ter uma casa minha, no mesmo lugar, na mesma cidade, durante mais do que meia dúzia de meses. Em 2016 encontrei felicidade em tantos momentos. E chorei também baldes de lágrimas, às vezes misturadas com risos. Em 2016 o mundo revelou-se demasiado cruel, demasiadas pessoas inocentes morreram nas mãos de executores de ideais, de governos e de religiões. Por isso e por mais algumas pequenas coisas, não foi um ano absoluta e inequivocamente feliz. Contudo - e no geral egoísmo da casa, trabalho, amor e amigos - foi maravilhoso. Lancei este blog, estive no elenco de quatro projectos de ficção em televisão e de uma longa-metragem, estreei uma curta que co-protagonizo, viajei todo o ano com ela e terminei o ano a vencer o prémio de melhor atriz num festival de cinema em Marrocos. Criei um projecto que anunciarei amanhã e já tenho outro a ser desenvolvido. Estou em pré-produção para outro filme e tenho milium sonhos com a pujança certa de os realizar. Fui de lua-de-mel, festejei os meus trinta e um anos com mais de quarenta amigos. Tenho todos os meus comigo, vivos, de saúde. E isso, isso é tudo o que isto vale. Hoje já fiz um balanço pessoal, dos que guardo para mim. Faço alguns ao longo do ano, não é preciso o dia trinta e um de dezembro para despertar em mim a capacidade de auto-analisar os contornos do meu percurso. Façam o vosso e, com bondade, lutem sempre por mais e melhor. Portugal e o mundo podem tornar-se, connosco e com as nossas despertas consciências, muito muito melhores.

 

Feliz 2017!

 

#83 resoluções para dois mil e dezassete

 

Há algum tempo, a Sapo perguntou-me pelo meu post das resoluções. E eu fiquei encantada com o interesse. Esse interesse em saber o que constitui as miliuma ideias para o novo ano colocou-me, confesso, um certo peso na escrita deste post. Aos poucos, comecei a sentir que as resoluções para 2017 iam ser muito mais fortes do que as alguma vez rabiscadas em folhas esperançosas de anos anteriores. Este ano novo eu quero, realmente, fazer algo diferente (e/ou a diferença).

 

 

 

#81 a cadeira que tinha fita-cola

 

Antes de mais, queremos anunciar que criámos uma menção honrosa porque não podíamos deixar de premiar o excelente trabalho e o... ai tanto árabe e espanhol, deixa-me ver se a minha carteira está bem fechada... Helena Canhoto.

Hum? O que se passa?

Helena, ganhaste! Levanta-te, vai pro palco, estão a bater-te palmas, é para ires, vai!

Porquê? Ganhei o quê? Hum? Não estou a perceber!!

Helena, vai!

Piiiii. 

Parecia que estava drogada. As imagens estava pouco focadas, não conseguia parar de rir e não percebia nada do que estava a acontecer. Foi tudo longo e rápido ao mesmo tempo. Discursei em espanhol, tentei sair do palco antes do discurso e ainda antes da fotografia para a imprensa. Uma confusão absolutamente dominada pela inesperada sensação de felicidade absoluta. Já tinha ganho outros prémios no passado, mas nada se equiparou a esta surpresa.

Sentei-me e perguntei ao meu amigo Tiago:

O que é que eu disse?

Não te preocupes, estiveste muito bem.

Aterrei em Lisboa e amanhã aterrarei no Porto, mas ainda me sinto colada na mesma cadeira marroquina. Não tenho a certeza, mas acho que tinha fita-cola.