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Miliuma

insónias | ideias | publicações

#125 tráfico humano e escravidão sexual em 2017

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Eu tenho uma amiga chamada Christina. Começou por ser minha professora de improvisação e, na altura, não tínhamos uma química especial. No fim do curso em Nova Iorque, deu-me A+, o único A+ da minha pauta. Um ano depois, encontrei-a em Los Angeles e tornámo-nos amigas. Ela, na altura com quarenta e nove anos, parecia uma garota de vinte e cinco. As duas partilhámos uma história de tragédia pessoal, tornámo-nos confidentes e ainda hoje nos correspondemos. Filha da vencedora do Óscar de Melhor Atriz Secundária Olympia Dukakis e do brilhante Louis Zorich, a Christina nunca teve a vida feita por ser filha de quem é. Ela é, aliás, um furacão e quem a conhece que o confirme.

 

#123 pedrógão grande, portugal

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O meu filho conhece um casal que foi de lua-de-mel para França e deixou o filhote com os tios, tinham ido para a praia fluvial, provavelmente viram o fumo e decidiram ir embora, se eles soubessem, o fogo nunca chegou à praia fluvial, coitados - disse-me o motorista do Uber que acabei de apanhar para vir pra casa, depois de ter entregue um saco cheio de ligaduras no quartel da Rua das Flores. A criança morreu? Sim, respondeu-me. E os tios também, morreram todos. Ficámos os dois emocionados, eu, trémula, repetia que ninguém recupera disso, ninguém recupera de tal tragédia. 

 

#121 o meu mito de santo antónio

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Foi há treze anos, a minha primeira noite de Santo António em Lisboa. Aceitei o convite de uma amiga, encontrei-me com ela no Campo das Cebolas e subi, subi, subi. Uma multidão inundava esta área da cidade que eu nunca havia visitado. Curvas loucas e piso que me fugia das sandálias rasas, pouco dinheiro na carteira, como estudante que era, medo de me perder das minhas amigas no meio de tanta gente. A minha vida longe de casa contava com apenas sete meses, oito no máximo, Lisboa ainda era estrangeiro para mim. As pessoas cantavam as músicas pimba com convicção, enquanto se apinhavam em quiosques de cerveja sagres durante vinte minutos para pedir um fino. E eu não percebia porquê.

 

 

#120 os acalorados

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Podia começar por dizer no meu tempo não era assim, mas estamos efectivamente no meu tempo, visto estar a falar-se de adultos aqui. O Frexting ( friends + texting ), pelos vistos, existe há uma porrada de tempo e eu não conhecia - mais de um ano, tendo em conta a efemeridade das tendências das redes sociais, é uma porrada de tempo.

 

 

#118 nós não ganhamos para isto, senhores

 

Licenciados, com estágios e pós-graduações e workshops e formações caríssimas, com boas notas, com investimento. Chegados aos trinta, os nossos salários são inferiores a mil euros por mês. Para muitos, brutos. O IRS, a segurança social, a alimentação, a roupa, os transportes, a higiene, os produtos de limpeza da casa, o carro, os extras anuais que ninguém espera mas sempre acontecem.

 

 

Os dedos alternam-se entre o idealista, a casa sapo e o olx. 800€ por buracos de 60m2, longe do metro com cozinhas mais velhas que o meu falecido bisavô. Pintam as paredes e chamam-lhes renovadas, no título. T1 na Sé para venda, 75m2, 850.000,00€, sim, oitocentos e cinquenta mil euros. Para todos os infortunados que estão neste momento à procura de casa porque os seus contratos de arrendamento vão terminar dentro de semanas e o senhorio está interessado em mudar arraiais para o Airbnb, o meu abraço sentido e votos de boa sorte.

 

 

#114 o salvador (sobral) de portugal

 

©Reuters

 

Pelo meio de tantas vidas normais, surge a voz de um jornalista da RTP a relatar o concurso da Eurovisão e a vibrar-lhe a voz cada vez que pronuncia: Salvador. Apaixonado pelo nome, pela pessoa, solta leves risadinhas nervosas quando a câmara aponta para o concorrente e este está de óculos e uma expressão cómica, concentrada e visivelmente inocente.

 

Salvador é o Salvador de Portugal, é a nossa essência de cauda da Europa, de país que não quer entrar em guerra, de nação virada para o mar. Nós, que só queremos abraços e amor e primavera e música bonita na nossa língua, melancolia e sorrisos ternos, abandonámos em conjunto e sintonia as nossas vidas normais para nos emocionarmos com o Salvador, irmão da Luísa. Demos as nossas mãos em filinha pirilau e chegámos juntos a Kiev, numa emoção limpa, sóbria, sem os gritos e as litrosas dos jogos da selecção nacional mas com igual contentamento genuíno. É isso que amamos em nós, às vezes pacóvios mas mais vezes genuínos. Salvador de Portugal é genuíno e é o homem mais amado do dia de hoje. 

 

Parabéns, rapaz. Hoje percebi o porquê de tanta efervescência.

 

#113 o monstro da pílula


Que todos os homens que se armam em esquisitos com o preservativo fiquem em abstinência sexual involuntária até expulsarem o egoísmo por completo. Para as mulheres, o preservativo também é desconfortável, caros senhores. Podia sugerir que tomassem a pílula masculina, mas tenho sérias dúvidas do seu empenho em manter horários ao longo dos meses, sem falhas. Não que esteja a atribuir um selo de incompetência, mas é mais fácil lembrarmo-nos da gravidez indesejada se é a nossa própria barriga que vai aumentar vinte quilinhos ao nosso esqueleto.

 

 

Acessíveis à leitura, com esta coisa às vezes boa da internet, têm surgido inúmeros artigos sobre os malefícios da pílula contraceptiva feminina. Ora, todas nós mulheres sabemos de muitas histórias de amigas que não toleram a medicação e quase todas já tivemos de saltar de fórmula em fórmula para encontrar algo que nos fizesse menos mal. Apenas menos mal. Poucas somos as que vivemos 20 anos de contracepção oral sem efeitos secundários.

 

 

#112 técnicas para uma relação passivo-agressiva

 

Quando escrevi sobre o José Mayer, que se tornou - de longe - a publicação mais lida no blog, recebi emails e mensagens de algumas pessoas que elogiavam a forma como eu tinha tornado simples entender determinados comportamentos, criando uma sensação de empatia através da apresentação de uma situação inversa. No caso, escrevi: "Já que gostas tanto do que está entre as pernas das mulheres e não te imagino com uma grande noção de limites, vamos imaginar então que é um homem a assediar-te, ou seja, alguém que à partida não queres de todo que te aborde sexualmente.".

 

É, muitas vezes, através da ironia, da comédia, da metáfora ou da comparação que se consegue identificar comportamentos violentos camuflados do dia-a-dia de pessoas sujeitas a determinados níveis de violência psicológica. Uns mais graves, outros mais leves, a verdade é que os episódios de violência psicológica retratados neste vídeo já aconteceram e acontecem em muitas, muitas relações. E é esse rácio que me assusta. Por falar em rácio, aqui está o texto que escrevi sobre o rácio. Mas antes, vale a pena ver este vídeo:

 

 

#109 libertem o sarampo

 

Custa-me muito escrever isto, mas:

Liberdade, ponto e vírgula.

 

É muito lindo isto da liberdade e eu que sou toda sangue quente a defender a liberdade de tudo e mais alguma coisa, mas como é possível sentirmo-nos agora, perante a liberdade de escolha de não vacinar as crianças?

 

A menina morreu. Após 23 anos em Portugal sem nenhuma morte por sarampo. Morreu porque não era vacinada - fim da história.

 

Eu tenho um afilhado com 17 anos e nem consigo imaginar tal cenário. Ele, claro, vacinado, que essa questão lá em casa nem se coloca. Mas e se ele morresse por culpa minha? E se ele morresse por culpa de um idiota qualquer que pensa que sabe mais de medicina que os médicos e que é detentor de um conhecimento profundo de artigos da internet que falam sobre a conspiração da indústria farmacêutica e abre links com títulos como: “os medicamentos naturais que eles não querem que você conheça” ? O que faria eu, como poderia viver com tal revolta? Como vais viver tu, mãe da criança, tu e a tua homeopatia?

 

 

#107 o natal ainda dou de barato, agora, a páscoa?

 

Em criança, passei sempre a Páscoa no Algarve. Viagens intermináveis de carro entre o Porto e o destino escolhido da costa algarvia, paragem obrigatória no Canal Caveira, duas semanas de piscina e de brincadeira com os filhos do Dr. Aroso. Éramos onze, nós e eles e nunca celebrámos a Páscoa. Depois vim morar para Lisboa e depois passei quase cinco anos fora de Portugal e entretanto voltei para Lisboa e, no meio dessa confusão, nunca me apercebi que as pessoas efectivamente celebravam a Páscoa. Este fim-de-semana, sozinha, com tudo fechado, fez-me sentir como se estivesse a passar o Natal num país tropical e toda a gente estivesse recolhida com as suas famílias enquanto eu permaneci, à secretária, a trabalhar em projectos novos até a solidão me agarrar.